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"As Horas", explicação do filme: O que acontece quando as emoções transbordam e o silêncio sufoca?

  • Foto do escritor: Aline Peixoto
    Aline Peixoto
  • 24 de mar.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 26 de mar.

Resenha do filme As Horas (Direção de Stephen Daldry, roteiro de David Hare, 2002).


imagem com as três personagens principais do filme As Horas, em frente a um mar, e cercadas de páginas do livro Mrs. Dalloway.

Sinopse: O filme conta a história de três mulheres de gerações diferentes cujas vidas são entrelaçadas pelo romance "Mrs. Dalloway", de Virginia Woolf: Clarissa Vaughan (Streep), uma editora nova-iorquina que prepara uma festa para seu amigo Richard (Harris), um escritor com AIDS que recebeu um prêmio literário em 2001; Laura Brown (Moore), uma dona de casa grávida em 1950 que tenta sustentar um casamento infeliz em Los Angeles; e a própria Virginia Woolf (Kidman), que vive no interior da Inglaterra em 1923, tentando escrever seu livro enquanto luta contra a depressão e pensamentos suicidas.

A primeira cena do filme já começa de maneira impactante, com a tentativa de suicídio da Virginia. Não podemos deixar de falar da simbologia da cena: ela com o bolso cheio de pedras, entrando no rio. Ou seja, entregando-se para suas emoções e todo o peso delas, considerando que na psicologia analítica as águas representam as nossas emoções. Ao longo do filme, assistimos a sua luta contra a depressão e a tentativa de ter a escolha de ser livre e viver a vida como deseja, lutando contra ordens médicas e a vigilância da família. Ela acaba sendo a única a não ser ouvida em seu próprio tratamento.


Enquanto ela escreve seu livro, é possível ver a sua dor e a sua luta contra a depressão nos diálogos e na forma como escreve a personagem principal. Conversando com seu marido sobre a morte de um personagem do livro, ele a questiona por que alguém tem que morrer, e ela responde que alguém tem que morrer para que a gente valorize ainda mais a vida. É o contraste. Entendo como se fosse uma tentativa sua de ver valor na vida, o que é muito difícil em razão da depressão. Em diferentes cenas, é possível identificar a tentativa dela em sentir algo, ter alguma emoção ou prazer além da dor.


Observa-se uma forte conexão entre a cena de Virginia no rio e a de Laura no hotel. A Virginia entra na água com as pedras no bolso, se entregando de vez ao peso do que sentia. Já a Laura, quando está no quarto deitada para morrer com os remédios, vê o quarto ser todo inundado pela água debaixo da cama. É como se ela estivesse se afogando nas próprias emoções. Mas o que muda tudo é que, bem nesse momento de "afogamento" simbólico, ela sente o bebê mexer na barriga e desiste do suicídio. Isso faz todo o sentido com o que a Virginia disse sobre alguém morrer para que a gente valorize a vida: no caso da Laura, o movimento do bebê é o choque de vida que faz ela parar de querer morrer. Ela escolhe viver, mesmo que para isso precise depois deixar a família para trás.


A personagem Laura, talvez, seja a que mais causa sentimentos contraditórios. Inicialmente, conseguimos nos identificar com ela, presa em uma vida sem escolhas por causa da sua época. As mulheres da geração dela não tinham muitas opções além de casar e ter filhos. Aos poucos, vemos uma mãe que não tem dom para ser dona de casa e não tem conexão com o papel de mãe. Quando o bebê nasce, ela decide ir embora para seguir seu processo de individuação e viver livre, conforme era o seu desejo. No entanto, deixou os filhos e a família para trás.


Fica o questionamento: será que a ferida do abandono não existiria também se ela tivesse ficado? Afinal, que mãe ela seria se não conseguia estar viva de fato naquela vida, apenas representando um papel?

Já a personagem Clarissa, em tese, é a mais livre. Vive nos dias atuais, com mais direitos e liberdade. Talvez todas essas possibilidades apenas tenham ajudado ela a disfarçar mais sua depressão, já que ela é a mais funcional das três. No entanto, vive presa a uma fantasia do passado e a um amor não correspondido, cuidando do amigo Richard para evitar encarar a sua própria vida. Se Virginia colocou pedras no bolso para afundar, as "pedras" de Clarissa eram o Richard. Talvez, após o suicídio dele, ela tenha a possibilidade de finalmente viver a sua própria vida.


O filme mostra como a depressão é silenciosa e pode passar despercebida em uma vida aparentemente funcional, mas sem cor. Ele nos faz refletir que a dor nem sempre é barulhenta; às vezes, ela é apenas uma vida vazia sendo levada adiante.

 

| Resenha por Aline Peixoto para grupo de estudos Literatura e Cinema. 24/03/2026

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