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A Queda da Persona: Uma reflexão sobre "A Morte de Ivan Ilitch"

  • Foto do escritor: Aline Peixoto
    Aline Peixoto
  • 9 de fev.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 10 de fev.

Você já sentiu que está apenas seguindo um roteiro? 🤔


Recentemente, reli "A Morte de Ivan Ilitch", de Liev Tolstói, e a obra me atingiu de uma forma nova. O livro narra a vida de um juiz que viveu para as aparências, para o "decente" e para o "correto" aos olhos da sociedade. O que mais me marcou foi a simbologia da queda: Ivan se machuca pendurando uma cortina. No teatro, quando a cortina cai, o espetáculo termina. Para Ivan, ao cair a cortina da sua decoração impecável, começou a cair também a sua "persona", revelando uma alma que ele esqueceu de ouvir. Fica a reflexão: estamos vivendo como desejamos ou como pensamos que devemos? 📖✨

A Morte de Ivan Ilitch é uma novela de Liev Tolstói, publicada pela primeira vez em 1886. A obra retrata a trajetória do juiz de instrução Ivan Ilitch e propõe uma reflexão sobre a morte e, consequentemente, sobre o sentido da vida. Considerada uma das obras-primas da literatura mundial, foi escrita logo após a conversão religiosa do autor, no final da década de 1870. Na narrativa, o escritor critica as convenções familiares, as aparências, a superficialidade e a hipocrisia da alta sociedade.


Inicialmente, a leitura pode não parecer tão fluida; o excesso de detalhes na descrição das cenas, dos cenários e dos personagens acaba tornando o ritmo um pouco maçante. Em diferentes momentos, questionei-me: quando, de fato, aconteceria algo? Qual era a trama? Afinal, qual foi a causa da morte de Ivan? O livro torna-se mais interessante ao final: no ápice do sofrimento do personagem e em sua agonia diante da finitude, a história ganha vigor. Em minha percepção, esse sentimento vivenciado durante a leitura talvez espelhe a própria vida de Ivan: um seguimento de padrões, sem emoção ou sentimento profundo, até que, no fim, algo de fato começa a ocorrer. A escrita traduz perfeitamente esse conflito.



Capa do livro (Editora Principis)
Capa do livro (Editora Principis)

Ivan viveu voltado para as aparências e para o que a sociedade esperava dele. Seus prazeres eram limitados: trabalho, jogos de cartas e jantares para amigos influentes. Vivia um casamento infeliz, mas seguia o roteiro social: ascensão profissional, uma casa padronizada, matrimônio e filhos. Felicidade? Não muita. Contentava-se em levar a vida que acreditava ser a correta: fácil, agradável e decente. Talvez possamos dizer que ele se identificou excessivamente com sua "persona", ignorando os desejos da alma — os quais só se permitiu escutar na infância, conforme percebeu em suas lembranças nos dias finais.


O período em que esteve sozinho reformando a casa — que compartilharia com a família e onde receberia seus convidados — foi um momento de grande felicidade. A empolgação com a reforma invadia seus pensamentos, até mesmo durante as audiências, cargo que ele valorizava muito. No entanto, nenhum detalhe da decoração trazia sua essência; tudo seguia os ditames e padrões da época. Ele gostava tanto do processo que executava, pessoalmente, algumas tarefas. Foi assim, pendurando uma cortina, que ele caiu e se machucou. Essa queda desencadearia todo o seu sofrimento e sua inevitável morte.


É interessante pensar que, no teatro, ao cair da cortina, o espetáculo termina. Ao cair, Ivan gera a dor que o levará a questionar sua trajetória e a deparar-se com a triste realidade de que não viveu como deveria. A "vida correta" que ele seguiu talvez fosse adequada para os outros, mas não para si. Ao cair colocando a cortina, inicia-se a queda de sua persona.

Não se sabe ao certo qual era a doença que o acometia, apenas que era algo nos rins. Como os rins são os filtros do nosso organismo, seu significado psíquico relaciona-se à filtragem do afeto e à separação entre o essencial e o tóxico. Ivan não soube identificar o que era vital para sua alma. Em seus dias finais, porém, conseguiu rever sua vida e ter um diálogo honesto consigo mesmo, percebendo o que sentia realmente. Para nós, leitores, fica a reflexão: como estamos vivendo? É como desejamos ou como pensamos que devemos?


| Resenha por Aline Peixoto para grupo de estudos Literatura e Cinema.

 
 
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